sábado, 17 de julho de 2010

El Maestro


Poucas pessoas tiveram tanto reconhecimento dentro e fora das pistas como este homem. Juan Manuel Fangio foi uma lenda do automobilismo mundial e para muitos, como eu, foi o maior piloto que já existiu. Porém, este argentino foi também um dos grandes cavalheiros da Era Romântica da F1, com um comportamento de fair-play poucas vezes vista na história da categoria, trazendo para si um enorme respeito pelos seus pares, não importando a época. Fangio foi uma espécie de ponto de referência em termos de pilotagem, números e caráter na F1 e viveu o bastante para acompanhar toda a evolução da categoria, desde o seu tempo em que as corridas eram perigosas e amadoras, até os tempos científicos anos 90, onde viu com tristeza a morte de Senna, piloto a quem Fangio dizia que o substituiria. Porém, mitos não são imortais e há quinze anos o pentacampeão mundial de F1 nos deixou e por isso iremos acompanhar a carreira deste senhor de Balcarce que encantou a Europa com sua forma limpa de correr.

Juan Manuel Fangio nasceu no dia 23 de junho de 1911 em Balcarce, na província de Buenos Aires. Filho de humildes imigrantes italianos da região de Abruzzo, o segundo filho de Loreto e Hermínia Fangio recebeu o nome de Juan, por ter nascido no dia de San Juan, e Manuel, por seu pai ser adepto da monarquia e homenageou o rei da Itália. Mesmo muito pobre Juan Manuel foi cedo a escola, mas em pouco tempo teve que começar a trabalhar, para complementar o orçamento familiar. Aos 11 anos passou a trabalhar como aprendiz de ferreiro numa oficina mecânica e aos poucos passou a ter contato com carros. Primeiramente, ele ligava os rústicos automóveis que ocupavam a vasta oficina, apenas para ter o prazer de ter uma máquina de quatro rodas nas mãos. Aos treze anos ele foi para uma oficina especializado em Studebackers e o chefe também preparava carros para corridas e Fangio passou a expandir seu conhecimento em mecânica. Aos 17, Fangio ficou um ano de cama por causa de uma pleurisia, mas no ano seguinte ele se apresentou ao exército. Mesmo apaixonado por carros, Juan Manuel era louco por futebol, mas suas pernas arqueadas não lhe permitiam ser um bom jogador e ainda lhe rendeu um apelido que o marcaria para sempre: El chueco.

Quando sai do exército, Juan Manuel Fangio monta uma oficina no centro de Balcarce com a ajuda de amigos e começa a pensar em competir em corridas. Porém, na Argentina não havia corridas em autódromos. Os portenhos se divertiam nas longas e perigosas provas de estradas, com as famosas carreteiras. Em 1936 Fangio começa a preparar com as próprias mãos um Ford Modelo A de 1929 para participar de uma destas corridas e logo de cara o argentino mostra talento. Não tardam a aparecer as primeiras vitórias e a fama local. Sua primeira grande corrida foi o Gran Premio Internacional do Norte de 1940, uma extensa corrida com mais cara de Rally Cross-Country, que ligava Buenos Aires a Lima através dos Andes. Foram duas semanas ininterruptas de prova e Fangio venceu seu grande rival na época, Oscar Galvez. Apesar de rivais, Fangio e Galvez, que daria seu nome ao autódromo de Buenos Aires, eram grandes amigos e isso provava o caráter de Fangio. Um piloto limpo dentro das pistas e um cavalheiro fora delas. Juan Manuel Fangio se torna bicampeão argentino de estrada em 1940 e 1941, mas a Segunda Guerra Mundial acabou interrompendo as atividades automobilísticas e Fangio passou a sobreviver basicamente de sua oficina e vendendo caminhões a cidades vizinhas.

Quando a guerra terminou, as corridas voltaram a prosperar na Europa, com os antigos carros italianos pré-guerra dominando o cenário. Juan Domingos Perón resolve promover corridas de Grande Prêmio na Argentina em 1947 e Fangio aluga um carro para disputar, no mesmo nível, contra os grandes pilotos da época, como Ascari, Wimille e Farina. Juan Manuel Fangio consegue resultados encorajadores e o Automóvel Clube Argentino, com o apoio de Perón, patrocina uma temporada para Fangio e Galvez na Europa. A primeira corrida de Juan Manuel Fangio no Velho Continente foi o Grande Prêmio da França de 1948, em Reims, mas quem garante a primeira vitória argentina na Europa foi Galvez, em Palermo, com um Alfa Romeo. Porém, Fangio fica mais um ano na Europa e o argentino consegue a incrível marca de sete vitórias em doze provas a bordo de um Maserati 4CLT e chama a atenção de todos. Se houvesse um Campeonato, Fangio seria o campeão, mas este campeonato finalmente seria organizado em 1950 e o argentino seria contratado pela equipe oficial da Alfa Romeo, que voltava às corridas após um ano de inatividade pela morte de Wimille. Aos 38 anos de idade, Fangio não era nenhum garoto, mas seu conhecimento em mecânica e sua experiência em corridas seriam decisivos para entrar para a história do automobilismo a partir de então. A equipe Alfa teria em sua equipe o famoso trio dos “três efes”, com Fangio, Farina e Fagioli. O modelo Alfa Romeo 158 dominou a primeira temporada da F1, vencendo seis das sete provas do calendário (as 500 Milhas de Indianápolis foram inseridas no campeonato, mas nenhum europeu participava da prova americana) e os três pilotos da equipe estavam com chances de título quando o campeonato seria decidido em sua última etapa, em Monza. Fangio tinha três vitórias na temporada, enquanto Farina tinha dois triunfos e um quarto lugar. Fagioli tinha uma coleção de segundos lugares e nenhuma vitória. Numa prova tensa, Fangio tem problemas com sua Alfa e Giuseppe Farina ficou com a honra de se sagrar o primeiro campeão da história da F1. Mesmo com a derrota, Fangio permaneceu na Alfa Romeo em 1951, mas a equipe já era acossada pela Ferrari, que havia vencido sua primeira corrida na história em Silverstone com José Froilan González, mas era Alberto Ascari o maior rival de Fangio, que já havia sobrepujado Farina e Fagioli dentro da equipe Alfa Romeo. Na última prova daquele campeonato na Espanha, Fangio e Ascari tinham ambos duas vitórias no campeonato, mas a Ferrari vinha em melhor forma, mas a Alfa Romeo tinha algo a mais do que seus compatriotas: a experiência. Os engenheiros da Alfa fizeram acreditar que usariam rodas de aro maior, que daria mais velocidade, o que a Ferrari seguiu e se deu mal. Ascari e González tiveram vários problemas no circuito de rua improvisado em Barcelona e Juan Manuel Fangio venceu a corrida e seu primeiro Campeonato Mundial de F1.

Logo em sua terceira temporada a F1 viveu seu primeiro grande problema e a Alfa Romeo, com problemas financeiros, abandonou as corridas no final de 1951. Com a francesa Talbot fizera o mesmo, a F1 correria o campeonato com os carros de F2 e a Ferrari, que tinha o melhor carro da categoria, dominou a temporada com Alberto Ascari. Mesmo sendo o atual Campeão Mundial, Juan Manuel Fangio começou 1952 sem equipe, participando de corridas ocasionais em um carro da BRM, equipe inglesa que tentava ser competitiva. Em uma destas corridas, em junho, Fangio se comprometeu a correr em Monza, mesmo estando competindo em Belfast no mesmo final de semana. O argentino tinha a certeza que teria a ‘carona’ no avião de Prince Bira, mas o tailandês abandonou cedo a prova irlandesa e deixou Fangio na mão. Após a corrida, Fangio correu para o aeroporto e só encontrou vôo para Paris. Ao chegar a capital francesa, Fangio alugou um carro e passou a noite dirigindo em direção a Monza, chegando ao autódromo faltando meia hora para a largada. Exausto pela enorme viagem e largando em último, Fangio sofreu uma rodada com sua Maserati, mas como seus reflexos não estavam 100% naquele dia, o argentino bateu em fardos de feno e capotou seu carro. Fangio foi jogado para fora do seu veículo e foi levado ao hospital seriamente ferido, com o pescoço quebrado. Milagrosamente o argentino sobreviveu, mas perdeu toda a temporada se tratando do acidente.

Totalmente recuperado, Fangio voltou à Europa e as corridas na metade de 1953, contratado pela Maserati, que na época não fazia frente à supremacia da Ferrari. Porém, Fangio passou a equilibrar o campeonato e ainda teve tempo de ser vice-campeão. Contudo, uma de suas histórias mais conhecidas aconteceu nessa temporada. Nos treinos para o Grande Prêmio da Itália, Fangio reclamou com seus mecânicos de uma enorme vibração em seu carro. Logo quando chegou a Maserati, Fangio havia prometido que daria generosas porcentagens aos mecânicos em caso de vitórias e no dia da corrida em Monza, Fangio teve um carro perfeito para voltar a vencer na F1. Após a prova, conversando com seu companheiro de equipe Felice Bonetto, ouviu do italiano que seu carro vibrava tanto, que quase perdeu todos os seus dentes...

Algumas vezes, Fangio foi acusado de querer sempre o melhor carro do pelotão, não importando em quebrar contratos unicamente para vencer. Seus próprios adversários negavam essa afirmativa. Eles diziam que para uma equipe vencer, o mais fácil era simplesmente contratar Fangio, que, se não tivesse o melhor carro, venceria na base do talento. Em 1954 a Mercedes voltaria às corridas após quinze anos de ausência e faz o que os adversários de Fangio diziam para também voltar a vencer: contratar o argentino. Porém, o carro não estava pronto para as primeiras corridas e Fangio é emprestado à Maserati, onde conquista três vitórias consecutivas no começo da temporada. Quando o revolucionário Mercedes W196 finalmente é estreado na França, Fangio mostra que os alemães estavam em outro nível e vence seu segundo campeonato de forma tranqüila, superando seu compatriota José Froilan González, da Ferrari. A Argentina tinha os dois melhores pilotos do mundo! A Mercedes forma um ‘Dream Team’ ao contratar o jovem Stirling Moss para 1955 e o inglês, com idade de ser até mesmo filho de Fangio, tenta aprender o máximo possível do companheiro de equipe. Muitas vezes, Moss ficava a poucos metros de distância de Fangio durante as corridas unicamente para aprender as linhas do argentino. Moss sempre dizia que sempre aprendia quando ficava nessa situação e passou a chamar Fangio de “El Maestro”. Juan Manuel Fangio se sagrava campeão pela terceira vez, mas 1955 não seria um ano agradável para o portenho. Em junho, Fangio se envolveu indiretamente na tragédia em Le Mans, quando mais 80 expectadores morreriam no que seria a pior catástrofe do automobilismo na história. Por causa desse acidente, a Mercedes resolveu deixar as pistas mais uma vez e Fangio, já com 44 anos de idade, pensa em se aposentar. Fangio vendia veículos da Mercedes com sucesso na Argentina e era essa a aposentadoria que ele queria, porém, quando voltou à sua terra natal, muitas coisas haviam mudado. Perón havia sido deposto e tudo a que se referia ao velho general passou a ser menosprezado pelos novos governantes e Fangio, que foi à Europa no final dos anos 40 com patrocínio de Perón, passou a ser visto como um simpatizante do peronismo. Mesmo permanecendo com sua revendedora em Balcarce, Fangio resolveu postergar sua aposentadoria.

Não demorou ao argentino conseguir uma equipe e ele foi contratado pela Ferrari em 1956. Fangio usou muito nessa temporada o subterfúgio de usar o carro do companheiro de equipe, no caso do seu carro quebrar. Nesses casos, os pontos seriam dados aos pilotos pela metade. No Grande Prêmio de Mônaco, Fangio conseguiu a proeza de ficar em 2º e em 4º lugar na mesma prova! Porém, nem o talento do argentino conquistou o coração de Enzo Ferrari e a temporada acabou sendo difícil para Fangio, mas um fato na corrida final mostrou o quanto o argentino era respeitado pelos demais pilotos. Em Monza, Fangio liderava o campeonato, mas Stirling Moss, da Maserati, e seu companheiro de equipe Peter Collins tinham chances de serem campeões. Antes da prova ficou acordado de que se algo acontecesse com o carro de Fangio, o italiano Luigi Musso cederia seu carro ao argentino. Porém, esse trato foi quebrado por Musso quando o carro de Fangio quebrou e o italiano se recusou a parar e entregar seu carro. Com Moss liderando a corrida, o inglês estava se sagrando campeão, mas a Ferrari ainda tinha esperanças em Collins, mas o inglês fez algo totalmente inimaginável nos dias de hoje. De forma voluntária, Peter Collins parou seu carro e o entregou a Fangio. “Sou muito jovem ainda e terei outras oportunidades para ser campeão”, argumentou Collins o porquê de sua atitude. Emocionado, Fangio voltou à corrida e com seu segundo lugar, conquistou seu quarto título mundial. Contudo, cansado das politicagens dentro da equipe Ferrari, Fangio trocou de equipe mais uma vez em 1957, causando ainda mais rancor a Enzo Ferrari. Porém, Juan Manuel Fangio teria que se desdobrar. A Maserati estava usando o mesmo carro de 1954 e o Maserati 250F nunca havia conquistado um título, de modo que a Ferrari vinha muito forte para este temporada com Collins e Mike Hawthorn. Como querendo provar algo, Fangio venceu três corridas (Argentina, Mônaco e França) e tinha chances de faturar o campeonato no famoso ‘Inferno Verde’ de Nürburgring.

Mesmo ficando com a pole-position, Fangio sabia que sua Maserati não tinha chances frente a Ferrari e resolveu usar da estratégia. Ele largaria com o tanque pela metade e, mais leve, tentaria abrir o máximo possível para voltar na liderança quando fizesse o reabastecimento. O argentino fez sua parte e abriu uma boa vantagem sobre as Ferraris de Hawthorn e Collins, mas a Maserati não fez sua parte e o péssimo pit-stop o colocou em 3º, mais de 40s atrás das duas Ferraris. Iniciou-se então uma exibição que ficou na história. Andando de uma forma nunca vista, Fangio parecia mostrar que toda sua parcimônia nas pistas, onde parecia andar mais devagar do que parecia, era apenas uma forma de vencer as provas sem correr grandes riscos, mas, se quisesse, Fangio também poderia vencer de forma agressiva. No perigoso circuito de Nürburgring, Juan Manuel Fangio passou a bater o recorde da pista de forma regular, se aproximando de Hawthorn e Collins de forma impressionante, fazendo com que a Ferrari pedisse desesperadamente que seus pilotos aumentassem seus ritmos. O tempo que Fangio fizera era superior ao recorde anterior em mais de 20s e superava com folga sua pole position. Fangio encostou nas duas Ferraris quando faltavam duas voltas. De forma matreira, o argentino deu a impressão de que não tinha forças para brigar e fez com que os dois pilotos da Ferrari abaixassem sua guarda. Foi fatal. Fangio os deixou para trás em uma única volta e não apenas venceu, como entrou para a história, se tornando mais do que um recordista de títulos, como também uma lenda viva, um mito no meio de mortais. Fangio foi levado em triunfo pelo público. Essa exibição no Grande Prêmio da Alemanha de 1957 é até hoje considerada a maior atuação individual na história da F1 e no final de 1957 ele receberia um prêmio na Academia Francesa de Esportes pelo seu feito.

Porém, essa atuação causou marcas profundas em Juan Manuel Fangio. A forma como venceu em Nürburgring deixou Fangio assustado consigo mesmo e, dizem, foi nesse momento em que decidiu se aposentar. “Nunca mais pilotarei como naquele dia”, falou Fangio pelos riscos que ele tinha decidido tomar na Alemanha. Contudo, outros fatos fizeram com que abandonasse a carreira. No início de 1958, Fangio foi a Havana disputar uma corrida especial de Carros-Esporte, mas o argentino acabou seqüestrado por revolucionários contra a ditadura do cubano Fulgencio Batista, mas logo seria solto. Seu carisma era tão grande, que ele acabou ficando amigo dos seus seqüestradores pelo resto da vida. Mais tarde, após um 4º lugar no Grande Prêmio da Argentina, Fangio participou do Grande Prêmio da França e em nenhum momento brigou pela vitória. Na última volta, quando estava prestes a levar uma volta do vencedor Mike Hawthorn, o inglês tirou o pé e Fangio pôde completar a sua última corrida sem levar uma volta. Perguntado o motivo de sua atitude, Hawthorn simplesmente respondeu. “Não se pode colocar uma volta em Fangio.” Após a corrida, o argentino foi ao hospital saber notícias de Luigi Musso, que havia sofrido um sério acidente e ao chegar lá, soube que o italiano estava morto. “Acabou.” Fangio se aposentou definitivamente do automobilismo para entrar para a história. Seu cartel impressiona não pela quantidade, mas pela eficiência. Em 51 corridas na F1, foram 24 vitórias, 29 poles (48 vezes na primeira fila), 23 voltas mais rápidas, 35 pódios, 277 pontos e cinco títulos mundiais (1951, 54, 55, 56 e 57) em sete temporadas.

Após sua aposentadoria, Juan Manuel Fangio passou o resto da vida associado a Mercedes-Benz, onde foi o presidente da Mercedes Argentina e depois presidente honorário. Sempre que podia, Fangio marcava presença nas corridas de F1 e viu vários pilotos tentaram quebrar seu recorde, como Jim Clark, Jackie Stewart, Alain Prost e Ayrton Senna, mas seu recorde ficou intacto até 2003, quando Michael Schumacher chegou ao seu sexto título. “Fangio está num nível superior ao meu. O que ele fez foi único e eu respeito muito que ele alcançou. Não há comparação”, falou o alemão. De fato, é difícil achar paralelos com Juan Manuel Fangio. Ele conduzia seus carros de forma espetacular, mas sempre dando uma sensação enorme de segurança, pois sempre fazia a mesma coisa em todas as voltas, cortando as curvas do mesmo jeito. Além disso, Fangio era uma pessoa compenetrada e íntegra, fazendo com que seus rivais se tornassem não apenas seus amigos, mas que o respeitassem de forma quase de pai para filho. Porém, a idade foi pesando e a saúde de Fangio se deteriorava. Quando o Grande Prêmio da Argentina voltou a ser realizado em 1995, o pentacampeão não pôde estar presente e todos pressentiram que o maestro estava próximo de partir. No dia 17 de julho de 1995, aos 84 anos de idade, Juan Manuel Fangio entrou definitivamente para a eternidade do olimpo do esporte.

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